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"Feira da escassez"

sábado, 23 de janeiro de 2010

O texto homenageado dessa semana é do cantor, compositor, multi-instrumentista e arranjador Galldino occtopus, que atualmente se apresenta no trabalho solo e na troupe do Teatro Mágico, que nos brindou a uns dias atrás com um belíssimo texto, A feira de escassez:

Dezesseis e trinta e dois da tarde de terça-feira. Bairro da alta classe de Hipocrisópolis. O senhor PhD em Desfassontologia da PUN (Pontifícia Universidade Neoniilista) chega ao mercadinho mais badalado da redondeza:

- Boa tarde, Pouco Importa.

- Ótima, seu PhD. Como vai a família?

- Já foi!

- Claro, claro. E o que quer hoje?

- Vou levar seis kg de misericórdia e três dúzias de piedade.

- Ah, isso não vou ter, não. Aliás, ninguém: está fora de fabricação faz tempo.

- Então, me dê aí uns duzentos gramas de bom senso e quatro pedaços de serenidade fresquinhos.

- Ih, era pra chegar ontem, mas o carregamento tombou lá na rodovia 666 que liga Santa Iracividade à Velha Imponderância.

- Ora bolas, pelo menos tem por aí algum diálogo que preste ou uma e outra boa vontade? Se não tem, então, o que será de mim... hahaha.

- Nem isso. Serve esse papo furado velho? Espera um pouco... Ah, tem essa passeatinha de domingo. Mas já tá meio sem gosto, pra falar a verdade.

- Pelo que vejo, Pouco Importa, a indignação já acabou também.

- Virgem Maria. Isso aí, seu P, quando chega, puft, vai na mesma hora. Pior : ninguém se lembra dela depois.

- Tá precisando melhorar o estoque, meu velho.

- Qual o que, patrão? Quase tudo que o senhor quer não tem saída. Meu estoque está abastecido.

- Será? Deixa ver então... hum, trás uma lata de credibilidade daquelas ali.

- Mas rapaz, era só o que me faltava. O senhor sabe muito bem que isso só com receita do Ministério da Manipulação. E tem que renovar sempre: a validade vence “rapidez”.

- Vou acabar definhando desse jeito, Pouquinho.

- É, né? Sei, sei... Leve alguma coisa instantânea, então: memória curta, falácia mole, vingança ineficaz, superficialidade afogadiça, oportunismo desenfreado...

- Hum, é bem tentador, viu. Mas hoje acordei igual a uma grávida: vontade de comer coisas extravagantes. Procura, nem que seja lá nos fundos, uma igualdade de oportunidade escondidinha. Mesmo que esteja sendo preparada agora. Eu espero.

-Hahahahaha, nessa o senhor caprichou: nem a mãe do Doutor Tudo Pode teve esse tipo de desejo. Daqui a pouco vai me pedir um saco de justiça para todos, ou, pior ainda, alguma distribuição das riquezas. Ahahaha. Ninguém, nunca, achou essas mercadorias. Quem tiver pra vender fica rico... ou morre.

- Mas que situação insuportável. Pelo que eu posso ver, da prateleira você já tirou até aqueles deliciosos idealismos e acalentadoras atitudes de conscientização, e colocou no lugar esses comodismos frios e desânimos bem coniventes.

- Pra falar a verdade, seu PhD, o senhor foi o primeiro a notar isso. E olhe que faz tempo que eu mudei tudo.

- Basta. Já que o que eu quero não tem saída, então vou pedir algo que todo mundo quer: dê cá cinco soluções paliativas e um conselho furado.

- Ah, finalmente. Sabia que daqui do meu estabelecimento o senhor não ia sair de mãos vazias. Pega as soluções: fazer um rico seguro de vida, blindar o carro, erguer o muro do condomínio, contratar um pequeno exército de seguranças truculentos e sedentos de sangue (daqueles que nem o “fanfarrão” famoso: psicopata e mal-feitor, tirando onda de justiceiro) e só andar pelas ruas da Europa.
O conselho: tape bem os ouvidos quando a bomba estourar.

- Ufa, agora sim. Me sinto como qualquer um nessa cegueira geral. Então, dane-se, seu Pouco Importa.

- Danemo-nos todos, seu PHD.

***

"De ontem em diante"

domingo, 10 de janeiro de 2010


Composição: Fernando Anitelli


De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugadasão coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque? É lavar carro com mangueira
E se antes, um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...Todo dia de manhã é nostalgia
das besteiras que fizemos ontem.

Um Otimo 2010 à todos!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Para desejar um feliz 2010 a todos, cheio de alegria, muita paz e saúde.Peço licença para usar das palavras poéticas, sabias e inspiradores de um dos maiores poetas da língua portuguesa, Carlos Drummond de Andrade, o homem que libertou o verso de suas amarras.
Nascido e criado em Minas Gerais, Drummond escreveu incansavelmente até o
final da vida, com uma obra que transita entre a poesia e o conto. Revelando o autor
que sempre esteve à frente do seu tempo.


Receita de ano novo.

Carlos Drummond de Andrade



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Sonhe. (Clarice Lispector)

sábado, 26 de dezembro de 2009
Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante baseado num passado intensamente vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre.





(Clarice Lispector)

Quem eu sou, por Luiz Fernando Veríssimo

sábado, 19 de dezembro de 2009


Nesta altura da vida já não sei mais quem sou...
Vejam só que dilema!!! Na ficha da loja sou CLIENTE,
no restaurante FREGUÊS,
quando alugo uma casa INQUILINO,
na condução PASSAGEIRO, nos correios REMETENTE,
no supermercado CONSUMIDOR. Para a Receita Federal CONTRIBUINTE,
se vendo algo importado CONTRABANDISTA.
Se revendo algo MUAMBEIRO,
se o carnê tá com o prazo vencido INADIMPLENTE,
se não pago imposto SONEGADOR.
Para votar ELEITOR,
mas em comícios MASSA,
em viagens TURISTA,
na rua caminhando PEDESTRE,
se sou atropelado ACIDENTADO,
no hospital PACIENTE.
Nos jornais viro VÍTIMA,
se compro um livro LEITOR,
se ouço rádio OUVINTE.
Para o Ibope ESPECTADOR,
para apresentador de televisão TELESPECTADOR,
no campo de futebol TORCEDOR. Se sou Corinthiano, SOFREDOR.
Agora, já virei GALERA.
(se trabalho na ANATEL , sou COLABORADOR ) e,
quando morrer...
uns dirão... FINADO,
outros .... DEFUNTO,
para outros ... EXTINTO,
para o povão ... PRESUNTO.
Em certos círculos espiritualistas serei ... DESENCARNADO, evangélicos dirão que fui ...ARREBATADO.
E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas um IMBECIL !!! Como brasileiro, ... se me passo por PATRIOTA,
na verdade sou ....IDIOTA !!!
E pensar que um dia já fui mais EU.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Indiferença
Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.


Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!

Guilherme de Almeida



Um dos motivos de eu resolver colocar esse poema, é que de certa forma exemplifica uma determinada situção da minha vida.
Esse texto foi retirado do site Jornal da poesia. Um poema de Guilherme de Almeida, que mostra como a poesia brasileira é rica.
Infelizmente ela não é reconhecida no nosso país , o que é uma pena.
O Brasil é tão rico culturalmente, entretanto toda essa riqueza é deixada de lado, isso poderia ser muito mais explorado e mais difundido.

texto da semana 2 ; Machado de Assis

sexta-feira, 27 de março de 2009

"Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me".
Trecho retirado do livro de Machado de Assis, Dom casmurro;
CAPÍTULO : OLHOS DE RESSACA


Fantástico livro de Machado de Assis , que consegue prender o leitor ; fascinar pela riqueza de detalhes; cheio de conflitos e perguntas que ecoam na cabeça do leitor, fazendo-o entrar no livro.Um livro que deixa uma eterna pergunta no ar.
Recomendo a todos que gostarem de boa literatura. Este é um livro que sem duvida, todos deveriam ler.