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Saudade da Inocência sem reticências.

quarta-feira, 7 de julho de 2010
Hoje andei lendo os meus textos antigos, confesso que senti falta da inocência e até ingenuidade que havia naqueles parágrafos e versos onde escrevia tudo que me vinha à mente, quando a preocupação era menor e as pausas, virgulas e pontos eram menos importantes. Me bateu uma certa saudade deste que escrevia mais com o coração e menos com a razão.
As respostas me pareciam vir com uma facilidade que não encontro mais hoje, mesmo que fossem incertas, eram minhas. Respostas de uma criança que vislumbrava tudo com um olhar novo, sem vícios, tudo era uma descoberta. A mais simples das frases era conteúdo e o mais elaborado dos versos, o máximo que se podia ser para tenra idade, era puro e transmitia a essência da liberdade infantil.
Pouco havia preocupação com a estética ou com o que pensariam sobre o que foi escrito, era uma época onde não havia reticências, tampouco os poréns, os mas, os entretantos e, tampouco os "tampoucos" que a vida nos impõe.
Ta certo que as evoluções foram importantes, isso, não há como negar, mas que bate uma nostalgia por perder essa relação tão sincera, que só uma criança pode ter com o mundo das frases, dos verbos, crases e versos, que nesse tempo nem sabia nomeá-los, somente saboreá-los.

Passos!

quarta-feira, 24 de março de 2010
Voltava para casa após um dia estafante de trabalho, os últimos raios de sol já a abandonavam, o breu na noite tomara por completo o seu cansativo e conhecido caminho.
Andava distraída, como se não desse muita importância, chutava as pedras que paravam a frente do seu velho e surrado ténis.
Um pensamento havia fisgado a sua atenção e, dela não desgrudaria por nada nesse mundo.Pensava, como era possível que em uma noite quente como aquela, as ruas se encontrassem tão vazias, simplesmente inimaginável que o caminho em direção a parte mais periférica da cidade, o lugar onde residia, podia estar tão vazio e sem vida. Não se ouvia risos e vozes de crianças, nenhuma sequer para contar historia, nem vizinhos fuxiqueiros sentados à porta de casa a cuidar da vida dos passantes, nem sequer os passantes. Somente ela, a única terrestre na face da terra.
Sentia a solidão fisicamente, as passadas eram dadas com dificuldade, o ar era rarefeito e já lhe faltava. Começou a imaginar passos a seguir o seu caminho.Será mesmo só imaginação, perguntava a jovem. Desconfia de si mesmo e de suas intenções, ainda continuava a ouvir os passos, cada vez mais perto. O simples ato que acabaria com o seu sofrimento, arrepiava-lhe, sentia um calafrio gélido e nauseado só de pensar em olhar pra trás.
Tomou a decisão, acelerou o passo e cortou caminho por ruas diferentes,becos e vielas sombrias,onde até um rato teria medo de revirar o lixo.
Quanto mais acelerava o passo, mais continuava a ouvi-los, corria como nunca antes correra em toda a sua vida.
Da esquina, avistou o portão de sua casa,já com tinta a descascar de cor alaranjada, deixando escapar a camada contra ferrugem, um portão tão comum, mas único aos seus olhos.
E ao chegar, mal conseguia colocar as chaves na fechadura, colocou-a quase quebrando, entrou em casa e sentiu um alivio, momentâneo, pois percebeu que o passos ainda a seguiam, iam pra onde ela fosse, olhou para o lado, olhou pra trás e nada via, a única coisa que viu e ouvi, foi a barra de sua calça cumprida demais, seguindo passo a passo o seu caminho.

(In)sono dos justos!

segunda-feira, 22 de março de 2010
A noite estava estranha, daquelas onde o calor é um gélido calafrio castigado, onde o tempo parecia não ter hora e, a hora era mera criação de uma mente cogitabunda, que se desfazia no fino caminho de uma ampulheta.
Deitado sobre a cama , fritava aquele ser indecifrável, que mais parecia não pertencer à realidade que lhe foi imputada, que segundo ele, por algum Deus cruel e sem coração, de uma mitologia antiga.
Olhava o relógio derreter, os minutos e os segundo se dissolviam juntos com os ponteiros, o menor e o maior ambos derretidos e perdidos de um tempo desconexo. Sentia-se enjoado, imerecedor de dormir naquela cama, de vestir aquelas vestes. Acendeu a luz na esperança de encontra-la, mas a única coisa que viu foi um ofuscar nos olhos, correu ao banheiro como se sua vida depende-se disso, lavou o rosto na agua fria e olhou em direção ao espelho e, o que viu foi reflexo de um ser vil, e sentiu asco por reconhece-lo, era ele mesmo quem enxergára refletido, olhou os olhos e o sorriso amarelo do dia passado, os mesmo que usará para representar sua falsa moralidade. Sentiu vergonha de não se envergonhar nem um pouco, nem sequer uma fingida vergonha. Ficou enojado, uma pressão comprimia seu peito, um pressionar de garganta e um cheiro fétido e podre lhe subia pelas narinas, o suco gástrico as queimava, e lhe expurgava todo o jantar e sobremesa junto com um pouco da sua alma.
Depois de colocar suas emoções para fora, aquele Ser refletido retorna ao quarto, olha para os moveis desgastados, a televisão em preto e branco, a persiana desalinhada e o ventilador velho e empoeirado. Olha como se esperasse compaixão, como se pedisse socorro ou uma palavra amiga depois do sono dos injustos. Mas a única que o responde é a companheira deitada em sua cama, desejando-lhe um bom dia, já que os raios do sol já atravessam a janela. E a única coisa que lhe resta é responde-la, Bom dia, Insónia.



Guilherme Diogo Rodrigues.